Para recordar: Maia critica Cabral após governador do Rio defender o aborto

25 de outubro de 2007 | 13h 18 (Fonte: jornal O Estado de S. Paulo)

Na quarta, Sérgio Cabral declarou que Favela da Rocinha é uma ‘fábrica de marginais’ e defendeu o aborto

O Prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, criticou em seu ex-blog o governador do Estado, Sérgio Cabral Filho (PMDB), que na quarta-feira, 24, defendeu o aborto como forma de diminuir a violência. Maia ironizou o uso das teses dos autores do livro Freaknomics, Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que estabeleceram uma relação entre a legalização do aborto e a queda da violência nos Estados Unidos.

Maia afirmou que o próprio livro faz “exercícios abstratos de correlação entre variáveis”, e que, por isso, não deveria ter sido levado a sério pelo governador Sérgio Cabral. Cabral afirmou que a Favela da Rocinha, na zona sul do Rio, é uma “fábrica de produzir marginal”. “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”, disse o governador em entrevista ao site G1.

No centenário da imigração japonesa em 2008, Sérgio Cabral e César Maia, à época, respectivamente, governador e prefeito (Foto: Rogério Santana, Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro).

Ao ser questionado sobre a afirmação mais tarde, Cabral mostrou irritação e tentou amenizar o discurso. “Hoje no Rio, em áreas mais nobres, como na Tijuca, se encontram taxas de natalidade de países civilizados, onde as pessoas têm consciência. Infelizmente, nas comunidades mais carentes daqui as mulheres não têm orientação do governo sobre planejamento familiar e têm taxas equivalentes aos países mais atrasados da África. Tem tudo a ver com violência”, disse.

Entidades não-governamentais e moradores de favelas acusaram o governador de criminalizar a miséria e de distorcer o discurso do movimento pró-aborto, que defende a interrupção da gravidez como direito da mulher de ter autonomia sobre seu corpo, não como forma de combate à violência.

“Com essas declarações o governo escancara que defende a criminalização da pobreza. Como o Estado não tem política para incorporar o pobre, melhor que nem nasça. A política é de extermínio”, disse Camilla Ribeiro, da ONG Justiça Global. “Para os mais ricos, o Estado se faz protetor; para os mais pobres, predador. Para se justificar, faz uma representação do favelado como o outro, de onde emana todo o mal”, afirmou o professor Rodrigo Torquato da Silva, morador da Rocinha há 36 anos.

Cabral destacou que a idéia de que a legalização do aborto teria relação com a diminuição da criminalidade foi comprovada no livro dos norte-americanos. Num dos tópicos do livro, eles relacionam a legalização do aborto nos Estados Unidos à queda da criminalidade em áreas pobres, embora ressaltem que essa associação suscita um debate ético.

Segundo Adriana Gragnani, do núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero da Universidade de São Paulo, Cabral baseou-se em idéias ultrapassadas, dos anos 60. “Essa tese de diminuir o número de pobres para combater a violência, seja por aborto ou contraceptivos, é antiga. Na verdade você diminui a pobreza elevando o nível de vida da população.”

As declarações de Cabral ocorreram um dia depois de o secretário da Segurança, José Beltrame, dizer que “um tiro em Copacabana é uma coisa e na (favela da) Coréia é outra”. Beltrame afirmou, na quarta, que não iria polemizar mais sobre o assunto.

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