Contra o curral ideológico: pela liberdade de escolha!

O que é “DIREITA e ESQUERDA”?

Do ponto de vista político-ideológico, desde a Revolução Francesa, designa-se como “direita” os defensores da ordem social e econômica (o status quo) e “esquerda” os seus opositores. Não vou aqui esmiuçar sobre o que seria uma e outra coisa, outra ocasião o farei. Basta partirmos dessa ideia básica para constatarmos que em um país com graves injustiças sociais como o nosso, torna-se um tanto desconfortável para alguém se assumir de “de direita” ou, mais ainda, existir uma “direita”, de fato, viável eleitoralmente. Hoje já há uma nova geração que se diz de “direita” (uma “nova direita”). Todos, porém, que o fazem (percorramos os sites e blogs assim autodesignados) não conseguem se satisfazer adequadamente com quaisquer dos candidatos a presidente em 2010.

A “direita” continua órfã, tendo de se contentar em operar como linha auxiliar, com vistas a manter a sua estrutura de poder local, de algum dos partidos de esquerda que se acham no proscênio da luta política, leia-se PSDB e PT. Sim, PT e PSDB, “cara de um, focinho de outro”. E não precisa ser alguém isento de compromissos político-partidários pra se reconhecer isso. Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio cansaram de exibir tais argumentos nos debates eleitorais.  Tanto Serra quanto Dilma se esforçam apenas para se diferenciar no varejo, não fazendo mais que apresentar sugestões pontuais, provar que um mais confiável que o outro no fazer mais do mesmo e tentar um corroer a credibilidade do outro.

No respeitante a formulações de projeto, diferença alguma entre Dilma e Serra. Diferentes desses dois,  tínhamos  os discursos de Plínio e de Marina, eles sim com projetos, e um distinto do outro. O único elemento a diferenciar PSDB de PT era o fato do último não ter alcançado o poder. Assim, uma vez lá, tal nuança se dissipou. Com nomes diferentes, as ações governamentais de transferência de renda são fundamentalmente as mesmas, apesar de um cenário mais favorável: beneficiou-se o Governo Lula, partindo da base construída na Era FHC, de uma conjuntura econômica internacional mais favorável.

Antônio Carlos Magalhães (BA) e Fernando Henrique Cardoso (SP), ao fundo Jorge Bornhausen (SC).

Todavia, notem, em sua luta pelo poder, ambos cortejaram o que há de mais retrógrado na política brasileira: Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Luís Inácio LULA da Silva, dois ícones da luta contra o regime militar, cada um por seu turno, uma vez governo ou às vésperas disso, aliaram-se FHC a ACM (Bahia) e Lula a Sarney (Maranhão) e Collor (Alagoas). Aliaram-se a lideranças que não só cresceram à sombra desse mesmo regime que haviam combatido, mas que também representavam e representam o que de mais secularmente opressivo temos em nosso país, responsáveis pelo profundo atraso de uma importante região do país e pela manutenção desse atraso: as oligarquias nordestinas.

Onde está nisso tudo “direita” e “esquerda”?

Que “direita” e “esquerda” do ponto de vista político-ideológico possam funcionar como referências, a orientar uma análise, tudo bem. O problema está quando as correntes políticas e os partidos a elas afiliados, seus adeptos, tentam fazer disso uma prisão, enjaulando o cidadão-eleitor com o intuito de constituir uma reserva de votos algemada às suas pretensões eleitorais.

Quão frequente a gente ouve o “você vai votar em fulano ou beltrano? que absurdo, ele é de direita ou esquerda”. Absurdo são esses políticos profissionais e sua militância sair policiando votos, no empenho de criar uma fidelidade do eleitor com certo ideário, e as próprias lideranças, que tanto batem no peito defendendo-o, utilitariamente o abandonam quando acham necessário.

Em tempos de engenharia genética: Sarney + Lula + Collor = ?!

Agem com uma liberdade que pretendem negar ao eleitor. É preciso mandar às favas os currais ideológicos (sucedâneos modernos dos currais eleitorais) e ser capaz de examinar com total liberdade os candidatos, suas histórias e propostas.  Isso é tanto mais sério para um cristão que, cidadão da Jerusalém celeste, vive em Cristo a experiência de uma liberdade frente ao mundo terrreno. Não ainda na plenitude, esta liberdade já começa a ser vivida aqui e agora. Na cidade dos homens, o grande referencial para o cristão é o próprio Cristo e os valores e princípios nele enraizados. Assim, diversamente daqueles políticos que fazem fé numa ideia mas a abandonam na sanha pelo poder, o cristão funda a sua fé na pessoa de Cristo e a partir dela busca contribuir na política para uma sociedade mais justa e uma humanidade mais integral.

 

ca. 390, Mosaic, Apse, Church of St. Pudentiana, Rome (mosaico na abside da Basílica de Santa Pudenciana): DOMINUS CONSERVATOR ECCLESIAE PUDENTIANAE.

Ilusão de ótica, cuidado: Dilma não é Lula, Serra não é FHC!

Libertados do curral ideológico, um outro desafio temos de vencer: não cair no engodo de nos fazer crer que estamos a votar entre Lula e Fernando Henrique Cardoso. Os governos de um e de outro são agora passado, o qual, de novo, devem servir como referência e não como prisão do nosso raciocínio. Nenhum dos dois é candidato.

Se os candidatos, neste 2º turno, são Dilma Roussef e José Serra, são esses os nomes que aparecerão na urna, tal ilusão visa essencialmente beneficiar a candidatura de Dilma. É ela quem não tem uma história junto ao povo, ao eleitorado. É um zero, ou antes um “x”, uma incógnita. Dilma nunca concorrera antes a um cargo eletivo. Neste sentido, não tem um passado político. O seu passado, mal disfarçado na sua própria propaganda na tv, é o de uma tecnocrata, apresentada como a grande gerente do governo ao lado de Lula.  Ora presidente, não é gerente.

Gerentes são escolhidos pelo presidente: têm de ter competência técnica e não necessariamente competência política. Um presidente, sim, tem de ter competência política, contato com o povo, sensibilidade para ouvi-lo e saber falar a ele.  A democracia permite esse reconhecimento e estreitamento através de eleições periódicas. Quem decide, avalizado pelas urnas (e isso não é um cheque em branco),  o que fazer é o presidente, o técnico ajuda a definir e viabilizar o como fazer. Um técnico pode até vir a ser um político, mas é preciso saber galgar passo a passo, de modo que o reconhecimento pelos eleitores não seja algo forjado e ilusório, mas conhecido em bases sólidas.

Já José Serra, discordando ou concordando dele, tem uma história reconhecidamente própria. Claro, tem o seu grupo político, mas não precisa provar que pensa por si. Todos sabemos. Quando se vir na solidão do poder não terá de lidar com fantasmas a assombrá-lo. Ele não é FHC, sabe disso e todos também sabemos. Tal não é o caso de Dilma Roussef, a qual pra muita gente simples passa por ser a esposa de Lula, tão mãe do Brasil quanto Lula gosta de se posar do novo pai do povo brasileiro.

Por que votar em Serra e não em Dilma?

Sendo os dois tão parecidos, tendo votado no 1º turno em Marina, por que voto em Serra?

1) Porque Dilma é uma incógnita, insisto nesse ponto. A campanha de Serra tem comparado Dilma com Collor. Mais exato seria compará-la a Pitta (SP) e Conde (RJ). Eles eram técnicos como a Dilma, sem nunca terem antes passado pelo teste das urnas. Se Collor é um grande desconhecido para a imensa maioria do povo brasileiro, pois a sua atuação se resumia ao estado de Alagoas, alguma experiência política já tinha quando concorreu para presidente. Dilma é pior: só tem experiência de bastidores e de gabinete, sem nunca verdadeiramente ter ido às ruas.  Pra quem não conhece ou não se lembra de Pitta e Conde, veja: Quem é Dilma?

2) A polêmica do aborto mostrou-se simbólica. Pior do que ser a favor da descriminalização do aborto, é tentar disfarçar essa convicção, apostando na “tergiversação” (palavrinha no primeiro debate do segundo turno repetida à exaustão por ela mesma) e na cortina de fumaça, enganando o eleitorado. Se hoje a candidata Dilma Roussef resolve manifestar-se com clareza a respeito do tema (uma vitória do povo que a compeliu a não ser tão escorregadia) e rejeitar a sua convicção de outrora (como se pode ver aqui), algo que sequer cogitara até o início deste segundo turno (veja também: Dilma, a anisotrópica), é pra se pensar. Afinal só o faz quando tem a sua eleição para presidente perigando. Trata-se de um momento inusitado. Uma vez eleita, ocupará o Palácio do Planalto por 4 anos. Eleição não é algo que ocorre todo dia. Uma vez passado o momento, o costume nas nossas democracias ocidentais é deixar no encargo do eleito o cotidiano do governo, só voltando a se manifestar nas próximas eleições ou diante de algo extremamente grave. Dá pra confiar em alguém assim? Sabemos, de fato, quem Dilma Rousseff é?

3) O Congresso Nacional que saiu das urnas em 3 de outubro dará a um Presidente oriundo do PT (no caso, Dilma Rousseff) uma maioria esmagadora, maioria nunca alcançada pelo próprio Lula: é a independência do Legislativo que se vê ameaçada.  Corre-se o risco do Congresso acabar atrelado e subordinado ao Executivo. Vimos nas últimas semanas antes do 1º turno como Lula agiu (diante da imprensa e da oposição), imaginando-se o Todo Poderoso, apenas em razão das pesquisas de opinião terem lhe dado uma popularidade inédita. A campanha do PT no 2º turno tem demonizado aqueles que têm se esforçado por denunciar as contradições da candidata e decifrar-lhe o mistério (faríamos parte de uma “corrente do mal” e eles uma “corrente do bem”. Vislumbra-se com a eleição de Dilma a concessão, a um único grupo político, de um poder, no passado recente, só próximo dos governos do regime militar. De um total de 513 deputados, os nove partidos que se coligaram para apoiar a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República elegeram, em conjunto, um total de 311 – três além da maioria qualificada exigida para a aprovação de emendas à Constituição (veja o quadro abaixo).

Mas, e a governbilidade de Serra, sendo a minoria, não estaria comprometida? Se examinarmos o quadro do Congresso saído das urnas (observe-se que ainda há de considerar os candidatos sub júdice em virtude da “ficha limpa”), constatamos compor parte da base dilmista, partidos historicamente desconfortáveis  em serem oposição, os quais acabam sempre migrando para a situação, o que proporcionaria a Serra uma base mais consistente, mas  obrigando o governo a negociar mais no Congresso. Tal situação é sempre mais favorável à democracia e garante a independência do Legislativo.

Legenda: partidos que no 1º turno apoiaram Dilma, Serra, Marina, Plínio e partidos que não lançaram ou não definiram apoio a algum candidato a Presidente da República.

Partido Número de deputados Número de senadores Partido Número de deputados Número de senadores
PT 88 11 PSDB 53 5
PMDB 79 16 DEM 43 2
PR 41 3 PPS 12 1
PSB 34 3 PMN 4 1
PDT 28 2 PV 15
PSC 17 1 PSOL 3 2
PCdoB 15 1 PP 41 4
PRB 8 1 PTB 21 1
PTC 1 PTdoB 3
PHS 2
PRP 2
PRTB 2
PSL 1
Total 311 39 Total 202 16

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