SOBRE PROTESTOS E BOATOS

Tenho visto e lido, amigos à direita e à esquerda, falarem de golpe, de algo maquiavélico por trás dos protestos populares destes últimos dias. Aliás, isso começou na direita e, agora, está num crescendo à esquerda. Acusações na maioria mútuas, a direita acusando a esquerda de golpe, a esquerda fazendo o mesmo em relação à direita. Todos esses discursos podem até manifestar, da parte de alguns, um desejo íntimo, mas da maioria é resultado do clima de boataria que ocorre quando não se tem respostas seguras, quando não se compreende adequadamente o que ocorre.

É a incerteza diante da novidade que irrompe diante de nossos olhos e debaixo de nossos narizes. O não se saber explicá-la porque se teima em usar o mesmo esquema interpretativo surrado e gasto que não dá conta mais da realidade. Novidade que já se manifestava durante algum tempo, e muitos queriam não perceber ou desacreditar, mas cuja erupção acabou por ocorrer nestes dias.

Para mim, visceralmente centro-esquerda e que não sigo a cartilha ideológica de grupo algum, sou o meu próprio cacique e de mais ninguém, democrata radical que aposta na inventividade popular e nas formas de democracia direta, é apaixonante vivenciar o que estamos a viver nestes dias. A História é sempre surpreendente, volta e meia resolve aprontar com quem imagina saber de tudo e deixa de prestar atenção aos acontecimentos, chacoalhando a realidade social.

Sobre os boatos, cumpre esclarecer: as Forças Armadas estão léguas de distância de desejar irem além de sua missão constitucional e intervir nos rumos da política nacional. Entre outras razões, estão escaldadas da vez derradeira que assim procederam e do ônus que têm de carregar como se o regime implantado em 1964 fosse uma ação exclusiva militar e não resultado de amplo espectro social. Mais um detalhe: golpe algum num país da dimensão e da importância do Brasil seria engendrado sem apoio externo.

Ora, o cenário internacional não favorece adoção de regimes ditatoriais. Este é um dado fundamental: a comunidade internacional, muito ao contrário, contestaria qualquer rumo tomado por nosso país nessa direção. Num mundo globalizado isso conta mais que ontem. Observem, não vemos nenhuma grande liderança política externando receio de golpe, pois sabe não há qualquer possibilidade nessa linha. Fala-se tanto em contexto, mas este importante dado é deixado por quem embarca na canoa furada golpista.

A respeito da dinâmica do presente movimento, para quem não sabe: o povo não tem dono! O protesto é resultado de uma insatisfação generalizada com os rumos do país, de um grito preso na garganta que vinha sendo balbuciado em face do desprezo escancarado das nossas elites políticas pelas necessidades de nosso país e pela realidade do povo.

Os vinte centavos foram o estopim, grupinho algum é dono do movimento, incluindo em São Paulo capital o MPL, sigla pela qual atende o Movimento Passe Livre. Da mesma forma que os vinte centavos foram o estopim, na pauliceia o povo pegou carona na convocação deles e os ultrapassou. O MPL só apareceu porque a nossa classe política acostumada aos velhos esquemas e chavões precisava de uma liderança como interlocutora. Na internet a convocação surge de anônimos e isso incomoda os iluminados vanguardistas da esquerda, atemorizam os ressabiados da direita e inquieta as elites governantes que não sabem lidar com a realidade que vem reiteradamente desprezando.

Tais elites governantes tentaram jogar água na fervura com uma muita bem orquestrada redução das tarifas. Para azar delas, num ato falho, tropeçaram nos seus próprios pés ao fazerem um discurso de criança que, tendo de ceder a todo o resto da garotada, insatisfeita com o jogo imposto pelo “dono” da bola, faz birra e lança ameaças de cortes de gastos em áreas básicas.

E então, é sempre no bolso de quem mais paga impostos é que tem de mexer? Nesses anos todos os donos das empresas de transporte ganharam muito além da inflação e, agora, como se os coitadinhos fossem amargar prejuízo têm de ser ressarcidos pelos cofres públicos? E o povo apanha duas vezes, pagando através dos impostos tal socorro e ao deixar de usar esse mesmo imposto nas áreas sociais das quais somos tão carentes? Tudo não passou, ao tentarem posar n foto de bonitinhos,  Srs. Haddad, Paes, Alckmin e demais governantes de uma desavergonhada atitude maquiadora de quem faz e fará uso da caixinha dessas empresas em suas campanhas políticas.

A indignação é contra todos os três poderes, em todos os níveis, incluindo o governo federal intimamente associado à maioria dos executivos municipais e estaduais mancomunados com tais empresas e que, numa política economicamente nada sustentável e irresponsável, atulhou as ruas de automóveis, sem projeto algum para longo prazo.

Portanto é também um movimento de indignação contra o descaso eleitoreiro do governo Dilma-Lula e então, vem o partido da Sra. PresidentE querer ser governo sem ter o ônus de ser governo e posar de oposição nas ruas encenando não ter qualquer relação alguma com os desgovernos do país? E também é contra os governos ditos da oposição, pois participam desse mesmo esquema estrutural corrupto que precisa ser quebrado.

Independente de boas intenções individuais e de acertos pontuais que se possa achar no varejo entre governantes e políticos, a questão é no atacado, é estrutural. Independente da clareza, consciência e coerência que cada um dos manifestantes possa ter (não se pode exigir numa multidão de centenas de milhares que todos exibam o mesmo nível), é um grito que precisava ser dado por quem, de fato, é o dono da bola, o povo.

É a indignação contra essas estruturas e hábitos perversos disseminados entre as nossas elites, seja quais forem as suas cores político-partidárias e ideológicas. O que tudo isso resultará, só os acontecimentos dirão, mas este é o momento do grito de indignação de todo um povo que mal estava conseguindo se fazer ouvir por quem deveria ser o seu representante.

Ontem houve quem dissesse não ser de partido e que, se sentindo perdido como estava, chegava a sentir falta de um partido com comitê central para dizer a ele o que fazer… É este o pior caminho, o de abdicar de nossa autonomia! Ouse ver os sinais do novo, as brumas leves da paixão que vem de dentro, escute, liberte o seu intelecto, arrisque a pensar por si próprio e comparar com liberdade e isenção, sem amarras.

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